A participação brasileira no Fórum Econômico Mundial 2026, realizado em Davos, na Suíça, trouxe sinais claros sobre os rumos da economia global, da geopolítica e das grandes transformações em curso. Esses aprendizados foram compartilhados por Daniel Randon e Erasmo Battistella durante a última reunião de governança e gestão do Transforma RS, a partir de suas experiências diretas no encontro.
Ambos destacaram que esta foi uma edição diferente do Fórum. Com uma nova liderança no World Economic Forum, Davos ganhou uma dinâmica mais pragmática, com mais foco em negócios, diálogo direto entre lideranças e construção de soluções, em meio a um cenário global marcado por incertezas.
Um mundo mais fragmentado, que exige diálogo
O tema central do Fórum deste ano foi “A Spirit of Dialogue”. Em um contexto de tensões geopolíticas, fragmentação econômica e mudanças rápidas, Davos reforçou a ideia de que o diálogo deixou de ser opcional e passou a ser uma necessidade.
A relação entre Estados Unidos e Europa, as expectativas em torno de um novo governo Trump e o reposicionamento das chamadas “potências médias” dominaram grande parte das conversas. Como resumiu o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney: “Precisamos lidar com o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse.”
Segundo Daniel Randon, apesar das tensões, o ambiente foi mais equilibrado do que o esperado, com espaço para conversas objetivas sobre governança global, crescimento econômico e novos arranjos internacionais.
Inteligência artificial e energia no centro da agenda
Outro ponto central foi a inteligência artificial, com forte presença dos CEOs das big techs. O consenso é que a IA já se tornou uma nova infraestrutura global, capaz de transformar profundamente o mercado de trabalho, os modelos de negócio e a produtividade.
Esse avanço traz um desafio imediato: energia. O Fórum deixou claro que a transição energética não é apenas sobre substituir fontes, mas também sobre garantir suprimento e segurança energética. A demanda por energia para sustentar data centers, IA e novas tecnologias cresce em ritmo acelerado.
Nesse contexto, o Brasil apareceu como uma grande oportunidade. A combinação de matriz energética mais limpa, potencial de expansão e recursos naturais coloca o país em posição estratégica. No entanto, tanto Daniel Randon quanto Erasmo Battistella ressaltaram a baixa representatividade institucional do Brasil em Davos, especialmente do setor público.

Brazil House e o protagonismo do setor privado
Mesmo com a ausência mais forte do poder público, o setor empresarial brasileiro esteve bem representado. A Brazil House, com empresas como Randoncorp, Be8 e Gerdau, foi um espaço relevante de articulação e relacionamento, levando a bandeira do setor produtivo nacional.
Erasmo Battistella destacou que o Brasil ainda “se vende mal” no exterior. Na percepção dele, investidores internacionais estão mais tranquilos em relação ao país do que o noticiário costuma sugerir, inclusive sobre os impactos das eleições. O problema central segue sendo a falta de presença estruturada e contínua nos grandes fóruns globais.
Um exemplo citado foi a Índia, que alugou um prédio inteiro em Davos, com salas dedicadas a representantes de seus estados, mostrando organização, estratégia e clareza de narrativa.

Oportunidades para o Rio Grande do Sul
Tanto Daniel Randon quanto Erasmo Battistella convergiram em um ponto: há grandes oportunidades para o Rio Grande do Sul, mas elas precisam ser melhor trabalhadas. A participação direta do governador e de uma agenda estruturada do estado em Davos poderia ampliar investimentos, parcerias e visibilidade internacional.
A mensagem é clara: quanto mais preparação, articulação e presença, maior o retorno. Participar de um fórum como Davos não é apenas “estar lá”, mas saber exatamente o que se quer apresentar, com quem falar e quais agendas priorizar.
Um Fórum de perguntas, não de respostas prontas
O Fórum Econômico Mundial 2026 reforçou que não vivemos um tempo de respostas simples. As grandes perguntas — sobre crescimento, clima, tecnologia, trabalho e governança — seguem em aberto. Davos não entregou soluções mágicas, mas criou o ambiente para que líderes globais pudessem “viver as perguntas”, construir confiança e avançar em caminhos possíveis.
Para o Brasil e para o Rio Grande do Sul, o recado é direto: o mundo está mudando rapidamente, e quem não ocupa espaço na mesa de diálogo corre o risco de ficar fora das decisões. O setor empresarial já deu passos importantes. Agora, o desafio é ampliar a articulação institucional e transformar potencial em estratégia de longo prazo.



